Alimentos cães e gatos

Atenção com os alimentos que devem ser evitados aos Pets!

   Devemos ter atenção com a alimentação dos nossos Pets, alimentos inadequados podem promover intoxicações e diversos efeitos graves em caninos e felinos.  Casos como esses ocorrem frequentemente, seja pela ingestão acidental, ou pelo não conhecimento dos tutores e proprietários sobre os malefícios de alguns alimentos.  A lista é variada e vai de chocolates a frutas, alimentos ricos em açúcares e sal. Deve-se dar preferência sempre, aos alimentos próprios indicados para os Pets, ou em caso de oferecer alimentos caseiros, buscar as orientações devidas com o médico veterinário, para se estabelecer uma dieta própria.  Em último caso, tenha atenção ao rótulo e aos ingredientes.  A maioria dos casos de intoxicação alimentar é diagnosticada na espécie canina, com ocorrências de até 80% dos casos, devido a diferentes fatores, como metabolismo, apetite menos seletivo e maior atração dos cães ao alimentos humano. Gatos são mais suscetíveis às intoxicações quando entram em contato com produtos tóxicos inodoros, e que estimulam o paladar, como temperos e sal.

   A crescente humanização dos Pets aumentam os riscos de intoxicação por alimentos de uso humano, e por esse motivo a atenção deve ser redobrada.

Cebolas e alhos.

Alho e cebolapapinha-congelada

   Plantas do gênero Allium spp, como cebola (Allium cepa), alho (A. sativum), cebolinha (A. schoenoprasum) e alho-poró (A. porrum), podem promover disfunções hematológicas em cães e gatos, inclusive com a possibilidade de desenvolver anemia hemolítica, condição grave que necessita de acompanhamento intensivo em ambiente hospitalar. O cozimento ou a deterioração dessas plantas não reduzem o seu potencial tóxico. Estes componentes são facilmente absorvidos pelo trato gastrintestinal, metabolizados a componentes altamente reativos, capazes de oxidar a hemoglobina em metahemoglobina em cães e gatos, resultando em diminuição de oxigenação nos tecidos, os quais induzem à hipóxia. Por ser menos solúvel a metahemoglobina se precipita,  formando corpúsculos de Heinz ou se depositando nas paredes celulares dos eritrócitos, tornando-as frágeis e propensas a destruição com a produção de hemólise.  Cães das raças japonesas Akita e Shiba são mais suscetíveis à intoxicação por cebolas, por apresentaram elevada quantidade de eritrócitos, e baixos níveis de glutationa e potássio séricos.  Os gatos são mais sensíveis e propensos à oxidação eritrocitária, com um risco maior aos efeitos da intoxicação.  Os sinais clínicos típicos da intoxicação pela ingestão acidental da cebola e alho, são em sua maioria gastrintestinais, como vômito, diarreia, dores abdominais, perda de apetite, além de desidratação e depressão. A destruição das hemácias pela oxidação apresenta sinais típicos da anemia hemolítica, como mucosas pálidas, dificuldade respiratória com aumento na frequência cardiorrespiratória, pulso fraco, letargia e hemoglobinúria. O atendimento deve ser imediato e efetivo.

Chocolates, chás e cafés.

CaféChocolate

   Cães e gatos podem se intoxicar por alimentos que contenham elevados teores das metilxantinas teobromina (3,7-dimetilxantina) e cafeína (1,3,7-trimetilxantina), componentes abundantes em chocolates à base de cacau (Theobroma cacao), chás derivados da planta Camellia sinensis L., cafés (Coffea arabica) e bebidas à base de cola, entre outras fontes.  Tais alimentos devem ser mantidos longe do alcance dos animais por conterem componentes tóxicos, sendo que existem relatos de intoxicação por ingestão de remédios humanos contendo cafeína.  Os efeitos tóxicos dependem da dosagem, tamanho do animal e teor de metilxantinas no alimento, pois chocolates à base de leite contêm menor teor de cacau que chocolates meio-amargos, e são considerados menos tóxicos. As metilxantinas inibem competitivamente os receptores de adenosina celulares, resultando em estimulação do sistema nervoso central (SNC), diurese e taquicardia. Provocam aumento da contratilidade muscular esquelética e cardíaca, devido ao aumento dos níveis de cálcio intracelular.  Uma vez absorvidas no trato gastrintestinal, são metabolizadas no fígado através das reações de conjugação. Os cães são mais sensíveis à intoxicação por metilxantinas, pois apresentam uma lenta eliminação, em comparação às outras espécies. Além disso, as metilxantinas são capazes de atravessar as barreiras hematoencefálica e placentária, e atingir níveis tóxicos com a manifestação clínica típica nestes locais. Os sinais clínicos são diarreias, vômitos, hiperatividade, tremores, fraqueza, taquicardia, hipertermia e intensa vocalização, são relatados entre 6 a 12 horas após ingestão e podendo ocasionar a morte. A alta quantidade de gordura presente no chocolate pode provocar pancreatite em animais suscetíveis, com intensa dor abdominal.

Frutos e outros alimentos

AbacateMacadâmiaFrutas

   Existem vários frutos que podem ser tóxicos aos Pets, o abacate é potencialmente tóxico para diversas espécies animais, o Persea americana pode causar intoxicação através da ingestão das folhas, semente, bem como a polpa da fruta. Relatos de intoxicação em cães e gatos são relatados, entretanto, o risco da ingestão da fruta à saúde dos animais se da pelo mecanismo de toxicidade ainda desconhecido, acredita-se que a toxina fúngica denominada persina seja responsável em desencadear acúmulo de líquido em alguns órgãos, nos pulmões, dificultando a respiração, a qual priva a oxigenação adequada, assim como fluidos podem se acumular nos tecidos como coração, pâncreas e na cavidade abdominal.  Ainda, por ser rico em gordura, a ingestão de alta quantidade de abacate pode levar à pancreatite.  A manifestação clínica é através da dispneia, abaulamento abdominal, ascite, anasarca, efusão pleural e pericárdica com edema pulmonar, irritação gastrintestinal, vômitos, diarreia, letargia e taquicardia podem surgir em até 24 horas após a ingestão da fruta, além de morte e, embora não relatado em cadelas e gatas, mamíferos lactantes podem apresentar edema de glândula mamária e produzir leite com aspecto alterado.

   As intoxicações por nozes do gênero Macadamia sp., conhecidas por nozes de macadâmia, foram relatadas somente na espécie canina, independente das doses ou volume ingerido.  O mecanismo de toxicidade ainda não é totalmente conhecido, acredita-se que possa estar envolvido com constituintes tóxicos presentes no fruto, ou ainda devido à contaminação por micotoxinas durante o processamento dos produtos contendo as nozes.  Os sinais clínicos observados são letargia e fraqueza, com frequente dificuldades motoras, que evoluem para inchaços nos membros, principalmente posteriores, tremores, dispneia, vômitos, dor abdominal, permanência em decúbito, hipertermia, taquicardia, podendo surgir pancreatite e reações alérgicas.

Uvas e passas

Uvas e passasgeleia-de-uva-_-tadeu-vilani

   São reconhecidamente tóxicas, vários relatos de intoxicação alimentar em cães, estão sendo atribuídos à ingestão de uvas e passas (Vitis vinifera), com casos fatais, seja pela ingestão na forma bruta, ou presentes em tortas, chocolates, bolos de frutas ou barras de cereais. Embora ainda desconhecido, diversas hipóteses têm sido descritas para explicar o potencial tóxico de Vitis vinifera, os quais incluem intolerância de cães aos taninos presente na fruta, presença de micotoxinas, pesticidas ou metais pesados, sobrecarga de açúcar, levando os animais ao choque, reações idiossincráticas, por diferenças enzimáticas, ou excesso de vitamina D.  Quanto maior for a quantidade de uva ingerida, maior é a toxicidade, entretanto existe uma grande variabilidade na tolerância dos cães, que independe do sexo, idade ou raça, uma vez que alguns cães foram a óbito após ingestão de poucas quantidades de uva, e outros permaneceram assintomáticos, mesmo após ingerir 1 kg da fruta. Os principais sinais clínicos tornam-se aparentes em até 24 horas após ingestão da fruta, e são caracterizados principalmente por, vômitos, diarreia, anorexia, dor abdominal, desidratação, fraqueza, tremores e letargia.  O diagnóstico da intoxicação por uva ou passas, é possível somente pela história de ingestão da fruta pelo proprietário, e pela identificação das frutas no conteúdo de vômito, fezes ou da lavagem gástrica.

Balas, confeitos e outros alimentos contendo xilitol.

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   Poliálcool utilizado como edulcorante em diversos produtos industrializados, como balas, gomas de mascar, confeitos, compotas, caramelos, chocolates, geleias, pudins, entre outros, devido ao sabor adocicado com baixo valor energético, além de cremes dentais e soluções para lavagem bucal, possuem a dose tóxica descrita em cães entre 0,15 a 16 g/kg, sendo a dose superior 0,5 g/kg considerada um risco para o desenvolvimento de hepatotoxicidade.  Embora não provoque alterações dos níveis de insulina ou de glicose sanguínea em humanos, a ingestão de produtos contendo xilitol pode provocar uma rápida hipoglicemia, desencadeada pela liberação de insulina em cães, podendo levar à morte.  Os sinais clínicos mais observados são, vômitos, depressão, ataxia, tremores e colapso em até 30 minutos após a ingestão do xilitol. Alguns cães intoxicados apresentaram petéquias generalizadas, equimoses e hemorragias do trato gastrintestinal, além de severa hipoglicemia.

Sal ou cloreto de sódio.

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   Embora seja rara a ocorrência de hipernatremia (aumento de sódio no organismo) pela ingestão excessiva de sal, onde essa intoxicação tende a ocorrer em animais com privação à água potável, existem relatos de intoxicação em cães, por ingestão de alimentos em conservas, como azeitonas, e substâncias que são ingeridas por acidentes, como massa de modelar caseira, contendo elevadas quantidades de sal, bem como ingestão excessiva de água salgada do mar.  Considera-se 2 mg/kg de peso a dose tóxica mínima de cloreto de sódio, sendo 4 mg/kg a dose mínima letal.  A alta concentração de sal no organismo provoca aumento da pressão osmótica que, por sua vez, desencadeia a saída de água das células para o sangue, resultando em hipervolemia e, consequente, edema em caso de incapacidade do corpo em reverter o volume adicional.  Ainda, as mucosas do trato gastrintestinal são irritadas na presença de cloreto de sódio, ocasionando úlceras e sangramentos.  O íon sódio em concentração superior à 155 mEq/L na corrente sanguínea, difunde-se passivamente para o líquido cefalorraquidiano, provocando inibição da glicólise anaeróbica, assim como da produção de energia para os neurônios.  Entretanto, em caso de nova diminuição do nível de sódio no cérebro, a água pode fluir para o líquido cefalorraquidiano, causando edema cerebral.  Os sinais clínicos manifestados são a letargia, vômito, diarreia, taquicardia, taquipneia, dispneia, hipertemia, mioclonia, poliúria, ataxia, tremores, convulsões e até mesmo morte podem surgir em período entre 24 e 48 horas.

Álcool, as bebidas alcoólicas contêm etanol.

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   Composto químico que causa depressão do SNC e respiratório, onde o etanol é rapidamente absorvido e o atendimento tem que ser imediato. Intoxicações graves têm sido relatadas quando bebidas alcoólicas são ingeridas pelos Pets, que não toleram o álcool, mesmo em pequenas quantidades.  O etanol ou álcool etílico é o tipo de álcool mais comum.  Está contido nas bebidas alcoólicas, usado para limpeza doméstica e também como combustível para automóveis.  A intoxicação nos cães por etanol também foi relatada após a ingestão de frutas podres.  O mecanismo de ação sobre o SNC está relacionado às alterações na permeabilidade da membrana celular dos axônios, e sua provável ação facilitadora de sinapses pelo neurotransmissor ácido gama-amino-butírico (GABA).  O álcool aumenta a inibição sináptica mediada pelo GABA e pelo fluxo intracelular de íons cloreto.  O álcool atua também sobre outros neurotransmissores, além do GABA no sistema adrenérgico, fazendo com que aumentem a síntese e a liberação de noradrenalina e no sistema opióide, diminuindo a ligação das encefalinas aos receptores, enquanto aumenta os níveis de beta-endorfinas.  Nos animais, altas doses promovem ataxia, redução dos reflexos, alterações comportamentais, acidose metabólica, excitação ou depressão, diminuição da frequência respiratória e parada cardíaca podendo chegar à morte, assim como nas pessoas.  Cães possuem uma taxa metabólica elevada, sendo mais suscetíveis à intoxicação.

Tomate.

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   Lycopersicon spp, pertence à família Dassolanaceae. As grandes partes verdes da planta, incluindo as folhas e talos, contém um glicoalcalóide, relacionado com a solanina, tóxico para os gatos e cães quando ingerido. Apenas os tomates verdes contêm essa substância. Os tomates maduros possuem em concentrações mínimas, que não oferecem riscos. Ela está presente na fruta ainda não madura, todavia é mais abundante nos talos e nas folhas. Geralmente os sinais clínicos manifestados pela intoxicação por comer as frutas verdes, folhas ou o talo do tomateiro são, tremores, fadiga e fraqueza, podendo evoluir para paralisia e parada cardíaca. Quando o tomate amadurece, a substância se metaboliza, fazendo com que se encontre em uma concentração inferior no fruto, podendo causar apenas sinais gastrintestinais.

   Outros alimentos de origem animal também merecem destaque por provocarem reações adversas quando ingeridos por cães e gatos. A baixa atividade da enzima lactase em mamíferos adultos, pode provocar diarreia osmótica naqueles animais que ingerirem altas quantidades de produtos contendo lactose.  A quantidade máxima diária de ingestão de lactose em filhotes é de até 5 g/kg de peso corporal, ao passo que um cão adulto tolera até 2 g/kg de peso corporal.  Por sua vez, produtos lácteos fermentados são mais digeríveis, como queijo e iogurte.  Alimentos como ovos podem ser fornecidos quando bem cozidos, entretanto, deve-se evitar alimentar os animais com ovos crus, uma vez que a clara contém enzimas inibidoras da tripsina, que é prejudicial à digestão proteica de cães e gatos, além de conter avidina, substância que inibe a absorção da biotina, levando à deficiência desta vitamina, essencial para a síntese de ácidos graxos, aminoácidos, purinas e ácidos nucleicos. A deficiência de biotina em cães e gatos provoca alterações a nível tegumentar, além de sinais inespecíficos, como anorexia, perda de peso e até mesmo quadros neurológicos.  Dentre outros alimentos de origem vegetal, os caroços das frutas do gênero Prunus sp., como maçãs, peras, damascos, pêssegos e cerejas, não devem ser ingeridos pelos animais quando se encontrem rachados ou abertos.  Estes caroços contêm uma substância glicosídea cianogênica denominada amigdalina, que ao ser degradada pelas enzimas digestivas, provoca a liberação do ácido cianídrico, que pode provocar a intoxicação em animais.  Há relatos que a ingestão de feijões do gênero Phaseolus, pode provocar indigestão e danos à parede gastrintestinal, devido à presença de lectinas, taninos, enzimas inibidoras da tripsina, glicosídeos cianogênicos, entre outros componentes prejudiciais.  Aipim e mandioca também contém glicosídeos cianogênicos, devendo-se evitar o seu uso na forma crua na dieta de animais.

Ovos e leiteFeijão

   Casos de intoxicações são comuns e devem receber atendimento médico veterinário.  O diagnóstico deve ser preciso, sendo importante avaliar possíveis lesões que possam promover falhas na função dos órgãos, como insuficiência renal e hepática, que contribuam para má qualidade de vida futura. Atenção com as doenças concomitantes que podem agravar pela dificuldade da metabolização dos produtos tóxicos, Pets que possuem doença no fígado (hepatopatas) ou nos rins (nefropatas), que dificultam a eliminação destes metabólicos tóxicos, permitindo por mais tempo a permanência de produtos tóxicos no organismo, dificultando a recuperação.

Palavra chave: nutrição, alimentação, intoxicação, diarreia.

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1 Paulo Daniel Sant’Anna Leal & 2Elena Michel D´Andrea Bastos

1 Coordenador Técnico do Centro de Terapia Intensiva e Emergência Veterinária
Médico-Veterinário, Mestre-MSc e Doutor-DScV, Membro da Academia de Medicina Veterinária do Estado do Rio de Janeiro.  Pós Doutorando Curso de Pós-Graduação de Ciências Veterinárias.  Anexo 1, Instituto de Veterinária, Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ). BR 465 km 7. Campus Seropédica, 23.890-000, RJ. E-mail: ctivet@ctiveterinario.com.br

2 Graduanda de Medicina Veterinária – Faculdade de Medicina Veterinária-Universidade Estácio de Sá

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